O "Estado Paralelo" 4.0: Facções instalam fazendas de criptomoedas para lavagem de dinheiro

Atualizado: há 4 dias
Operações recentes da Polícia Civil e do MPRJ revelam galpões de mineração de Bitcoin operando 24 horas em áreas de risco no Rio de Janeiro

Imagem de IA
A segurança pública brasileira parece ter ficado presa no passado analógico das viaturas e da burocracia cartorial, enquanto o crime organizado já atua plenamente como uma grande corporação da era digital. O transporte arriscado de dinheiro em espécie em rodovias está sendo rapidamente substituído por uma infraestrutura tecnológica de primeiro mundo, capaz de gerar e lavar recursos de forma descentralizada. A prova definitiva dessa escalada tecnológica veio à tona com investigações recentes da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), que desmantelaram verdadeiras "fazendas" clandestinas de mineração de criptomoedas operadas por facções criminosas.
A descoberta mais recente ocorreu em um galpão em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. No local, operado de forma 100% remota e sem a presença de funcionários, as autoridades encontraram mais de 100 computadores de altíssimo desempenho e exaustores industriais funcionando ininterruptamente para validar transações na blockchain e receber frações de Bitcoin como recompensa. Nos meses de maio e junho deste ano, estruturas idênticas já haviam sido localizadas nos Complexos da Maré (dominado pelo Terceiro Comando Puro) e do Lins (sob controle do Comando Vermelho).
Segundo as autoridades, a operação dessas máquinas consome uma quantidade brutal de energia elétrica, que é inteiramente furtada por meio de ligações clandestinas. A delegada Camila Pegorim, da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCI), detalhou a dimensão do esquema: "Se a gente tiver 100 máquinas operando 24 horas por dia, 7 dias por semana, estamos falando da mesma quantidade de energia elétrica que é usada por um condomínio de casas de pequeno porte", explicou. O prejuízo, como de costume, não fica com o criminoso. "Quem paga a conta somos nós, a população em geral, porque o custo do prejuízo é repassado na tarifa que pagamos no dia a dia", ressaltou Glaucia Rodrigues, promotora do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ).
Além de multiplicar recursos com a criação de ativos digitais altamente valorizados, as fazendas operam como uma máquina perfeita de lavagem de dinheiro, blindando o capital ilícito contra os radares da Receita Federal e do Banco Central. O economista e consultor financeiro André Mirsky explica a dificuldade de asfixiar financeiramente essas quadrilhas sob as leis atuais: "Transferindo dinheiro para carteiras digitais, que não são centralizadas e não passam junto de órgãos reguladores, eles mudam até de país. Rastrear esses fundos fica muito mais complexo".
O domínio territorial das facções agora avança para o monopólio da infraestrutura digital e da vigilância. A delegada Pegorim alerta que "a internet que funciona hoje dentro dessas comunidades é controlada pelas facções criminosas, que a gente não sabe se é uma rede segura ou o que fazem com toda essa informação".
Enquanto o Congresso Nacional debate regulamentações que travam o ambiente de negócios para o empreendedor honesto, o submundo do crime atua com isenção total de impostos, energia subsidiada pelo roubo e tecnologia imune às fronteiras físicas. Para as autoridades e especialistas, a conclusão é amarga: a legislação penal brasileira tornou-se obsoleta.
Fontes: G1


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